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A importância da escuta e do acolhimento psicológico em Reprodução Assistida

Na área da infertilidade e Reprodução Assistida, a Psicoeducação pode minimizar o estresse provocado pelas escolhas a serem feitas e pelas dúvidas que surgem nas diversas fases do tratamento. Ao abordarmos o tema, reprodução humana, tratando-se da incorporação das técnicas de fertilização in vitro, observamos que inclui-se à esta realidade vários grupos que resultam de diferentes necessidades para dar continuidade aos tratamentos propostos.

Entendemos que não obstante, a importância dos recursos oferecidos pelo desenvolvimento da biotecnologia e da medicina reprodutiva, as questões de ordem ética e emocional devem ser abordadas na tentativa de assegurar a adequação emocional de todos os envolvidos. Após algumas reflexões nos facultamos a possibilidade de apresentar a vinheta de um caso clínico, a fim de ilustrar a relevância do trabalho da equipe interdisciplinar e da importância da inserção do psicólogo neste estafe.

O caso a ser relatado nos remete ao processo de sofrimento de duas pessoas: uma delas chamaremos de Ana (nome fictício), casada com João, ambos na segunda união, ela sem filhos e ele pai de um casal muito vivaz, segundo nossa consulente. Após o nascimento dos meninos, João se submeteu a vasectomia, procedimento cirúrgico que impede o homem de ter filhos. A cirurgia interrompe a circulação dos espermatozoides produzidos pelos testículos e conduzidos para os canais que desembocam na uretra, impedindo a gravidez.

Ana narra que durante a primeira união não desejava ter filhos por sofrer com muitas dores no período menstrual, imaginava que não suportaria um parto. Porém, no decorrer do processo terapêutico, ao qual se submetia, foi ressignificando esta condição e entendendo que desejava ter um filho; de acordo com seu relato a convivência com os enteados despertou seu instinto materno. João reverteu a vasectomia.

Para atestar sua condição física para gestar o filho desejado, durante a realização dos exames, fora identificado um tumor no intestino de nossa paciente, diagnosticada e encaminhada para o tratamento oncológico. Encontramos na psicoeducação um meio de um dos recursos oferecidos pela medicina reprodutiva, a criopreservação oncológica que a partir do desenvolvimento da biotecnologia, tem disponibilizado o congelamento de células germinativas, o que propicia meios para a gestação em tempo mais adequado.

A American Society of Clinical Oncology ASCO, recomendado que os oncologistas informem sobre a possibilidade de infertilidade aos pacientes em idade reprodutiva e discutam as possíveis opções de preservação ou para encaminhar os pacientes interessados a um especialista em reprodução. Destacamos que as decisões relativas à manutenção da fertilidade sejam trabalhadas por uma equipe multidisciplinar, adentrando no contexto psicológico, onde o paciente possa partilhar seus medos, ansiedades, valores, crenças e mitos, para viabilizar a tomada de decisão.

No Brasil a Resolução CFM nº 2.168/20173 permite que pessoas sem problemas reprodutivos diagnosticados, possam recorrer às técnicas disponíveis de reprodução assistida, como o congelamento de gametas, embriões e tecidos germinativos. Dessa forma, são beneficiados pacientes que, por conta de tratamentos ou desenvolvimento de doenças, poderão vir a ter um quadro de infertilidade.

No contexto da criopreservação o psicólogo, deve ter um conhecimento profundo e manter se sempre atualizado sobre os tratamentos e sua eficiência, pois assim estará capacitado para atender as necessidades individuais de cada paciente e as várias questões significativas que deverão ser abordadas e definidas durante um curto período de tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento oncológico.

Dificuldades psicológicas afloram diante do diagnostico de câncer e infertilidade, pois são acontecimentos de vida carregados de emoções, ajustamentos e dificuldades e a junção destes fatores, provocam uma reação por vezes devastadora. Melamed & Avelar 2015.

Para lidar com esta situação atroz, existem orientações para que se leve em conta a questão individual do paciente e o contexto de sua vida presente, devendo ser prestada de forma clara, transparente e precisa, visando atender as necessidades emocionais do paciente. O trabalho, portanto, deve ter um caráter psicoeducativo, assegurando a possibilidade de ocorrer uma ação terapêutica que associa recursos pedagógicos e psicológicos para elucidar questões muitas vezes novas e desconhecidas e os caminhos para alcançá las, tendo sempre em vista a preservação da saúde psicoemocional de todos os envolvidos. (Lopes& Straube & Melamed 2018).

A atuação do psicólogo no caso de Ana, necessitou certa versatilidade, visto que os aspectos psicológicos decorrentes do diagnóstico e do tratamento do câncer e a possível infertilidade subsequente, deveriam ser trabalhados em um curto período de tempo. Para auxiliar a paciente a crio preservar suas células germinativas, fora orientada a buscar um centro de reprodução assistida. O trabalho do psicólogo teve como principal meta discutir, com o casal, as questões inerentes aos desejos, anseios e duvidas para que estivessem cientes de suas escolhas e das chances que o tratamento apresentaria.

Ana passou por duas cirurgias a fim de extirpar o tumor, tendo ainda sido submetida a sessões de radio e quimioterapia. Em meio a este processo interrompeu o acompanhamento psicológico, seu argumento na ocasião se pautou no fato de que “este espaço é reservado para falar sobre desejos de vida e neste momento os mesmos estão congelados, assim como os óvulos”.

Apesar da psicoterapia ter sido “interrompida” a comunicação com profissional de saúde psicóloga, saiu do setting terapêutico, na medida em que Ana de tempos em tempos escrevia uma mensagem, “estou passando para enviar um abraço”; à escuta viva da linguagem que permeava este comportamento o associou a necessidade da paciente manter o vinculo, assim como mantinha seus óvulos congelados.

Ana retornou à psicoterapia trazendo em sua bagagem alguns questionamentos e angústias outrora inexistentes, a problemática girava em torno de dilemas éticos e afetivos relacionados ao destino a ser dado às células crio preservadas. Por meio da psicoeducação, coube ao psicólogo, oferecer informações e contribuir para uma busca consciente afim de facilitar a tomada de decisões, levando em conta que diante da sua condição física, Ana fora orientada a não gestar.

A avaliação de alternativas favoreceu a expressão de emoções, no imaginário de Ana a possibilidade de ter um filho gestado por um útero solidário inexistia, outra alternativa seria doar as células criopreservadas para outra mulher, mas para ela a chance de isto ocorrer inexistia, pois significava passar “seu gene estragado” (sic a paciente) para frente.

As dores manifestas diziam respeito a sensação de vazio, de um caminho percorrido habitado por planos e desejos não realizados. Após algumas reflexões percebemos que o sentimento descrito pode ser identificado no poema escrito.

“E o que é uma renda?
Não mais que uma linha, cordão ou fita, que contorna buracos, fazendo desenhos.
Com esse contorno desfilam flores, folhas, arabescos, gregas uma infinidade de formas, mas o buraco continua lá.
E o que acontece se, por acidente, o fio é puxado?
Não sobra nada dos desenhos, apenas o fio.
A renda com seus desenhos, é devolvida em sua condição de buraco, ao espaço vazio”

Nossa escuta e acolhimento permitiu dar chance à fecundidade de seus desejos, e assim, por meio de uma tradução simbólica dos sintomas e sinais, estabelecer suas próprias escolhas. (Melamed, 2009).

Rose Marie Massaro Melamed
2021 Psicóloga C R P 06/ 11807
Siga a autora no Instagram: @massaromelamed

Referência Bibliográfica
Castelo Branco, L.; Brandão, R. S., A Mulher Escrita. Rio de Janeiro, Maria Editorail Ltc., 1989.

Lopes, H. P.; Straube, K. M.; Melamed R. M. Psicoeducação aplicada à reprodução humana. In: Psicologia e Medicina Reprodutiva, S B R H, 2018.

Melamed, R. M.; Avelar, CC Criopreservação oncológica e social. Temas contemporâneos de psicologia em reprodução humana assistida A infertilidade em seu espectro psicoemocional.. São Paulo: Livrus (2015).

Melamed, R. M. M.; Seger, L.; Borges JR, E. Psicologia e Reprodução Humana Assistida: uma abordagem multidisciplinar. 1. ed. Santos Editora, 2009. v. 1. 170p

17 de março de 2021