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Em Tempos De Coronavírus: reflexões motivadas pela filosofia

Não é muito difícil de compreender a injeção de 5 trilhões de dólares para ajudar no combate à pandemia do coronavírus anunciada há poucos dias. Problemas diversos animam esta ação: empregadores e funcionários, pessoas que vivem da informalidade econômica, vulneráveis em diversas situações etc. Os países do G20 ou aqueles que detêm os maiores PIBs mundiais, países desenvolvidos, e em desenvolvimento, tomaram esta decisão por diversos motivos. Algumas pessoas poderiam enfocá-la pelo viés da solidariedade em relação ao enorme número de pessoas em estado de vulnerabilidade existentes no mundo; outras poderiam pensar sobre a necessidade de frear o pânico mundial, o qual geraria inúmeros desastres; outras, ainda, poderiam mencionar a necessidade de manter o sistema financeiro mundial funcionando. Melhor injetar essa grande soma de dinheiro neste momento e lucrar posteriormente do que ariscar um descalabro econômico mundial, o qual poderia gerar uma perda ainda maior. Várias são as possibilidades de se enfocar a pandemia do coronavírus. Neste escrito eu escolhi uma abordagem que há muito tempo me preocupa: a morte do homem pelo enfoque filosófico cultural.

O impacto desta problemática anunciada pode soar um enorme pessimismo. Não é o meu caso. Ela pode insinuar alguma reflexão religiosa ou apocalíptica ou algo do gênero, mas também não é o que me interessa. Essa pandemia do coronavírus veio a calhar em minhas reflexões sobre os descaminhos a que culturalmente nós fomos assumindo em nossas vidas. Há tempos me questiono sobre o caminho que a nossa cultural escolheu, bem como as suas consequências à vida das pessoas. Comecei esta preocupação por dois motivos. O primeiro foi verificar que várias teorias filosóficas são incorporadas, não em seu todo, mas em algumas de suas partes relevantes aos interesses escusos de grupo e/ou pessoas, de forma interesseira e irresponsável com relação ao sistema elaborado por este ou aquele filósofo. Refiro-me às meias filosofias de que nos apossamos para justificarmos essa ou aquela ação, esse ou aquele interesse. O segundo motivo foi perceber que a nossa cultura se edificou pelo que denomino de cultura da morte, um distanciamento da homineidade.

É sobre isto que desejo me esforçar em escrever. Mas não desejo, reforço, que se espantem com a forte expressão “a morte do homem”. Faço mais uma advertência para que não me tomem por indelicado com o leitor que começa esta jornada reflexiva, mas tenho o dever de lhe informar que se trata de um olhar filosófico, o que não satisfaz a muitas pessoas. Os filósofos, geralmente, não são figuras muito desejáveis. Muitos os odeiam, outros os suportam, menosprezam, deles se afastam. A história nos mostra inúmeros exemplos dessa atitude de repulsa quanto à filosofia e aos filósofos, e isso por vários motivos, um dentre eles é falar ou escrever sobre o que não se quer ouvir ou ler. É nesse sentido de não ser indelicado que indico que leia este escrito quem tiver em mente duas considerações básicas.  A primeira é a de ser um espírito livre. A segunda é a de não esperar uma conclusão logicamente arquitetada no final deste escrito. Trata-se de uma reflexão, não de um tratado. Ao filósofo cabe colocar questões que ofereçam alternativas a outras formas de pensar e de viver. Às pessoas que não suportam a palavra filosofia indico que se dedique a outra coisa que mais lhe agrade.

Escrevo para quem dá valor, principalmente, aos princípios filosóficos que nos formaram e que tanto nos afligem. Sabendo ou não desses princípios que nos possibilitaram organizar as nossas vidas, eles nos afligem. E é exatamente neste ponto que eu pretendo iniciar esta reflexão. Antes de refletirmos sobre o que denominei de “morte do homem”, pretendo me dedicar às duas epistemologias que (eu) considero fundamentais à emergência dos saberes edificados no século XIX: o viés lógico formal e o enfoque onto-lógico, os quais analiso adiante. Retorno à ressalva acima aludida para que amanhã não reclame de tempo perdido com esta leitura. Sabedores de que essa escrita é uma reflexão, de cunho filosófico, que não é um tratado, que se reserva refletir sobre os descaminhos, segundo os quais edificamos a nossa cultura, nos conduzindo à morte teórica do homem, não se dê ao trabalho de ler estas linhas quem não pretende ver apresentadas algumas impressões muito duras a nós mesmos. Mas leia este escrito quem desejar continuar escrevendo esta introdução de um livro maior, sem autor em específico, tecido por várias mãos, em prol de uma sociedade melhor. Realço, aos filósofos, que este escrito não segue o metié de uma redação filosófica. Minhas reflexões se compõem com a minha vida.

Esta redação não é um começo de conversa sobre o impacto mundial decorrente da pandemia do coronavírus, embora seja por ele que me encontro confinado, o que me reserva um tempo para levantar certas questões. Como acima anunciei, há muito tempo venho me questionando sobre a vida humana neste planeta. Minha origem teórica, você já deve ter notado, é a filosofia, e ultimamente tenho me dedicado à prática e ao estudo da arte marcial chinesa Wing Chun, a qual muito contribuiu em minha vida, mas sou um homem comum que se dispõe, sem receio e rodeios, a dialogar com pessoas que se dispõem ao mesmo. É a partir dessas referências que pontuarei algumas questões reflexivas.

Duas vertentes filosóficas, em meu ver, edificaram os pilares da contemporaneidade e, pelas meias leituras e interpretações que delas fizemos, nós nos encaminhamos para a cultura da morte. Refiro-me aos modelos: lógico formal e onto-lógico – acima citados. Por intermédio dessas meias leituras desses sistemas filosóficos nós nos tornamos fenômenos, história, produto do meio, imagéticos e virtuais, percurso da morte espiritual do homem, no qual nos encontramos imersos. No desenvolvimento dessa reflexão eu me permitirei tecer alguns comentários e indicar algumas alternativas. Estas devem ser lidas com restrições porque são pessoais e podem ofender algumas corporações e pessoas, mas são sinceras e possíveis de serem executadas.

O confinamento gerado pela pandemia do coronavírus é contraditório: ele nos espanta ao mesmo tempo em que nos proporciona pensar em melhores formas vivenciais. Como Hegel no ensina, quem na vida não se arrisca não merece ser chamado de homem.

Pedro Gomes Neto (UFG/PPGP/FE)


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16 de maio de 2020